De tanto cair, aprendi a voar

Flávio Resende*

Acordei, hoje, pensando sobre a urgência da minha completude. Que o momento de ser feliz é agora e que não dá para esperar pela sorte ou pelo destino. Ficamos o tempo todo nos dando desculpas pelas escolhas incongruentes que fazemos em relação aos nossos reais propósitos, seja por conta da falta de tempo, de grana, do que nossa família vai pensar e por incontáveis outras justificativas.

Com isso, vamos nos contentando com “o que temos para hoje” e, assim, seguimos pra onde a maré nos levar – em geral, para um lugar que aos poucos vai se tornando sem graça e quase nada desafiador.

O problema é que acabamos nos acostumando a viver assim e o ciclo vicioso nos aprisiona num mecanismo do qual nos tornamos incapazes de romper. Mas como, do nada, reaprender a se lançar, deixar de racionalizar tanto e usar o medo a seu favor?

As crianças nos ensinam bastante acerca deste mistério. Na maioria das vezes, nascemos libertos, sem barreiras para descobrir e provar o novo. Seguindo esta linha de raciocínio, podemos dizer, portanto, que somos essencialmente seres entregues, abertos e com sede de luz. O que nos diferencia, ao longo do tempo, são as experiências e o repertório de vida de cada um.

Mas isso não significa que se um dia me feri (ou fui ferido) isso se repetirá com outras pessoas e contextos, ao longo da jornada. Ouvi outro dia algo que aprofunda este olhar: “Ando sem destino e, mesmo me perdendo, sempre me encontro. Porque, às vezes, ir embora é a melhor decisão que podemos tomar. Eu não tenho medo de ir embora de quem não quero mais ser, e dizer adeus a quem um dia já fui, mas que não me representa mais”.

A verdade é que, de tanto cair, aprendi a voar. E quanto mais voo, mais sede tenho de vislumbrar o que ainda não conheço.

Há também quem não queira mudar para não magoar o outro; porque, de alguma forma, as suas escolhas podem impactar a vida de quem está por perto. Mas até que ponto, em outros campos da sua vida, você tem sido mais fiel ao outro do que a si mesmo? A que destino isso tem te levado? Como é represar os sonhos em detrimento do que eles podem reverberar nas outras pessoas?

Estes questionamentos abrem mil possibilidades e interrogações. Tenho escutado, nas sessões de Coaching, com meus clientes, muito o discurso do “eu não aguento mais”, “chega”. Este é um insumo incrível do processo de transformação. Ninguém precisa mudar quando tudo está sob controle. O caos é o nosso combustível para caminharmos em direção ao que faz sentido, naquele momento – o que nos leva a crer que, sim, em algum instante, algo pode mudar. E está tudo certo também.

O desconforto, por princípio, nos tira do eixo, nos faz repensar e chega até a doer. O que nos diferencia uns dos outros, no entanto, é a nossa capacidade de agir diante do que acontece à nossa volta.

Perdi algumas oportunidades raras na minha vida, daquelas que o coração sinaliza (com pisca pisca em neon, em letras garrafais) e a gente sente, intuitivamente, de um modo divino até, que o caminho está ali, bem diante dos nossos olhos, a alguns passos de distância. Aí vem a razão, o medo e, com o perdão da palavra, fode com tudo, inclusive, com nossa esperança. Não estou mais disposto a deixar de escutar o meu coração e a confiar no que meus sentidos mais sutis me apontarem.

Ontologicamente, o medo tem um papel preponderante em nossa existência. Sem ele, ao atravessar a rua, por exemplo, sucumbiríamos sob as rodas de automóveis anônimos. Usar o medo ao nosso favor é, curiosamente, um aprendizado daqueles que dói. Em outras, dá frio na barriga. Mas a verdade é que não existe jornada à prova de choques, não é mesmo? E Deus deve ter uma explicação para isso também.

Aprender a viver na vulnerabilidade é um dos nossos maiores aprendizados nesta Terra. E convenhamos: o que não falta é risco – de ser feliz, inclusive. O tempo, por sua vez, é o nosso maior ativo nos dias atuais. Fiquemos atentos, portanto, para que importância temos dado a ele; e até ponto nossa capacidade de alçar voos pode nos levar a mundos nunca antes adentrados.

 

*Flávio Resende é coach ontológico, jornalista, colunista, empresário, palestrante, âncora de um programa de rádio e aprendiz das coisas do sentir e de tudo mais que couber nesta vida. <3



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