Congresso Nacional aprovou texto que implode o licenciamento ambiental exatamente um mΓͺs apΓ³s ANP ofertar para leilΓ£o 47 novos blocos de petrΓ³leo na Bacia da Foz do Amazonas;
Se sancionado, projeto abrirΓ‘ caminho para que os novos blocos na Bacia da Foz do Amazonas escapem de uma anΓ‘lise ambiental tΓ©cnica robusta, colocando em risco Γ‘rea rica em biodiversidade marinha e ameaΓ§ando povos indΓgenas e comunidades tradicionais.
Exatamente um mΓͺs apΓ³s a AgΓͺncia Nacional do PetrΓ³leo, GΓ‘s Natural e BiocombustΓveis (ANP) realizar leilΓ£o ofertando 47 novos blocos para exploraΓ§Γ£o de petrΓ³leo na Bacia da Foz do Amazonas – alΓ©m de outros blocos em demais regiΓ΅es do Brasil -, o Congresso Nacional aprovou um projeto de lei que implode o processo de licenciamento ambiental, o PL da DevastaΓ§Γ£o, em 17 de julho.
Segundo o texto doΒ projeto de Lei 2159/21 aprovado na CΓ’mara dos Deputados no ΓΊltimo dia 17, o licenciamento ambiental para exploraΓ§Γ£o de petrΓ³leo no Brasil serΓ‘ do tipo βsimplificadoβ e o estudo de impacto ambiental serΓ‘ exigido somente em βsituaΓ§Γ΅es excepcionaisβ e que sejam devidamente justificadas pela autoridade licenciadora, algo totalmente oposto ao processo em curso no Bloco 59, que estΓ‘ hΓ‘ 12 anos em fase de anΓ‘lise devido Γ complexidade socioambiental do empreendimento.
“Em junho, as petroleiras, incluindo a Petrobras, compraram 19 blocos de petrΓ³leo na Bacia da Foz do Amazonas como quem reserva apartamentos na planta: elas apostam na certeza polΓtica de que o prΓ©dio serΓ‘ erguido Γ s pressas, beneficiados por um licenciamento de alicerces frΓ‘geis. NΓ£o Γ toa, 40% dos blocos ofertados nesta regiΓ£o foram leiloados para apenas quatro petroleiras. Certamente, jΓ‘ havia a expectativa de que o PL da DevastaΓ§Γ£o serΓ‘ o alvarΓ‘ que elas precisam para liberar a construΓ§Γ£o de um futuro afundado nos combustΓveis fΓ³sseis”, comenta a porta-voz da campanha de Oceanos do Greenpeace Brasil, Mariana Andrade.
Embora o licenciamento do Bloco 59 nΓ£o seja diretamente afetado pela aprovaΓ§Γ£o do PL da DevastaΓ§Γ£o, as regras propostas pelo projeto 2159/21, como a LicenΓ§a Ambiental Γnica, abrem caminho para que os 19 blocos na Bacia da Foz do Amazonas recΓ©m-arrematados no leilΓ£o da ANP escapem de uma anΓ‘lise ambiental tΓ©cnica robusta.
NΓ£o Γ toa, o processo de licenciamento do bloco 59 jΓ‘ dura mais de uma dΓ©cada. Em agosto, ocorre uma etapa decisiva desse processo: a Petrobras deve realizar uma AvaliaΓ§Γ£o PrΓ©-operacional (APO), que consiste em uma simulaΓ§Γ£o da capacidade da empresa de conter um possΓvel derramamento de Γ³leo na regiΓ£o. ApΓ³s a realizaΓ§Γ£o da APO, caberΓ‘ ao Ibama analisar os resultados e tomar uma decisΓ£o sobre a emissΓ£o da licenΓ§a.
βA complexidade do licenciamento do Bloco 59 tem nos mostrado o quanto a atividade de exploraΓ§Γ£o de combustΓveis fΓ³sseis nΓ£o pode ser tratada com superficialidade, e que sΓ£o muitos os interesses polΓticos ali envolvidos. Uma autorizaΓ§Γ£o para furar o fundo do mar nΓ£o deveria se resumir a um pedaΓ§o de papel com 5 linhas de relatΓ³rio, como propΓ΅e o projeto de Lei 2159/21. Se sancionado, este projeto aumentarΓ‘ os riscos ambientais na Foz do Amazonas, compactuando para a devastaΓ§Γ£o do nosso oceano e colocando em risco as populaΓ§Γ΅es indΓgenas e tradicionais da regiΓ£oβ, explica Andrade.
Mesmo sem o PL da DevastaΓ§Γ£o, as comunidades jΓ‘ relatam que nΓ£o sΓ£o ouvidas
AlΓ©m dos danos ambientais, um dos maiores riscos da exploraΓ§Γ£o de petrΓ³leo na Foz do Amazonas Γ© o impacto direto nas comunidades tradicionais que habitam a regiΓ£o. Entre elas, estΓ£o os povos indΓgenas, como os da Terra IndΓgena UaΓ§Γ‘, JuminΓ£ e Galibi, que enfrentam desafios tanto ambientais quanto sociais com a proximidade das operaΓ§Γ΅es petrolΓferas.
As comunidades indΓgenas tambΓ©m expressam suas preocupaΓ§Γ΅es em relaΓ§Γ£o Γ ausΓͺncia de consulta prΓ©via sobre o impacto da exploraΓ§Γ£o em suas terras. De acordo com o Protocolo de Consulta dos Povos IndΓgenas do Oiapoque, os indΓgenas exigem ser ouvidos no processo de licenciamento e questionam como as operaΓ§Γ΅es serΓ£o realizadas de forma segura, caso ocorra um acidente com derramamento de Γ³leo, algo que afetaria diretamente os animais e os prΓ³prios habitantes das terras indΓgenas.
Na cidade de Oiapoque (AP), mais de 60 caciques dos povos indΓgenas Karipuna, Galibi Marworno, Galibi Kaliβna e Palikur Arukwayene, assinaram uma cartaΒ exigindo a imediata suspensΓ£o do processo de licenciamento do bloco FZA-M-59, na bacia da Foz do Amazonas, e de todos os blocos leiloados pela AgΓͺncia Nacional do PetrΓ³leo (ANP). A atividade de perfuraΓ§Γ£o pode resultar na perda de territΓ³rios tradicionais, na reduΓ§Γ£o de Γ‘reas pesqueiras e na diminuiΓ§Γ£o de recursos naturais essenciais para a subsistΓͺncia dessas populaΓ§Γ΅es, aumentando as tensΓ΅es e o risco de deslocamento forΓ§ado.
Riscos Ambientais: impactos ao ecossistema marinho e costeiro
A Bacia da Foz do Amazonas ocupa uma faixa do territΓ³rio marΓtimo que se estende do AmapΓ‘ atΓ© a BaΓa do MarajΓ³, cobrindo uma Γ‘rea da Margem Equatorial, onde a Petrobras solicitou a exploraΓ§Γ£o de petrΓ³leo e gΓ‘s natural e outras empresas como Exxon-Mobil, Chevron Brasil e CNPC Brasil anseiam vasculhar. A regiΓ£o Γ© rica em biodiversidade marinha, com espΓ©cies endΓͺmicas e ecossistemas frΓ‘geis, como recifes e manguezais, que estΓ£o intimamente associados com a seguranΓ§a alimentar das comunidades da regiΓ£o e o aporte de recursos pesqueiros para vΓ‘rios lugares do Brasil e do mundo.
A exploraΓ§Γ£o de petrΓ³leo nesta Γ‘rea apresenta riscos graves de contaminaΓ§Γ£o por derrames de petrΓ³leo e poluiΓ§Γ£o quΓmica, que podem comprometer esses ecossistemas crΓticos. A atividade de perfuraΓ§Γ£o tambΓ©m pode alterar a qualidade da Γ‘gua, prejudicando diretamente a fauna marinha e as comunidades costeiras que dependem da pesca para sua subsistΓͺncia.
Fonte: Greenpeace Brasil