DF acolhe e dΓ‘ dignidade a refugiados indΓ­genas da Venezuela

Um ano e meio depois de chegar Γ  capital federal, comunidade Warao Coromoto conquista

O Brasil Γ© um refΓΊgio para muitos cidadΓ£os de paΓ­ses que passam por crises sociais, financeiras e polΓ­ticas. Para muitos, o abrigo encontrado em BrasΓ­lia, mais precisamente na regiΓ£o do CafΓ© sem Troco, em Planaltina, foi crucial para recomeΓ§ar o que parecia impossΓ­vel. Γ‰ o caso das 46 famΓ­lias de refugiados indΓ­genas venezuelanos da etnia Warao Coromoto, que abandonaram seu paΓ­s de origem em busca de melhores condiΓ§Γ΅es de vida no Distrito Federal.

Se hoje contam com apoio do Governo do Distrito Federal (GDF), a comunidade precisou lidar, por meses, com a inseguranΓ§a de estar em um paΓ­s novo. β€œNΓ³s ficamos por muito tempo morando no chΓ£o da RodoferroviΓ‘ria de BrasΓ­lia, dependendo da boa aΓ§Γ£o das pessoas. LΓ‘ na Venezuela nΓ£o dava mais para ficar. Aos poucos, aqui, fomos ganhando acolhimento e apoio e hoje nΓ³s sΓ³ temos a agradecer ao governo do DF”, diz, emocionado, o cacique da comunidade Warao, Miguel AntΓ΄nio Quijada, 45 anos.

Em atenΓ§Γ£o Γ  comunidade refugiada, o GDF disponibilizou dez casas para abrigar os 46 nΓΊcleos familiares do grupo. Os indΓ­genas moram em estruturas construΓ­das no ano passado, fruto de uma parceria entre a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) e o Alto Comissariado das NaΓ§Γ΅es Unidas para Refugiados (Acnur).

β€œA nossa primeira grande conquista foi o local onde estamos instalados”, revela o cacique. De acordo com ele, a segunda vitΓ³ria foi conseguir matricular todas as crianΓ§as e jovens da comunidade em uma instituiΓ§Γ£o de ensino β€” realidade essa que nunca sequer havia acontecido quando moravam ainda na Venezuela.

Foi a partir daΓ­ que o sonho de uma vida melhor comeΓ§ou a se concretizar. Para o cacique, nΓ£o Γ© apenas uma sala de aula de 70 metros quadrados. Γ‰ um espaΓ§o que nunca havia sido frequentado pelas crianΓ§as de 4 a 17 anos da comunidade. A Γ’nsia para aprender a ler e a escrever, pelo menos, o prΓ³prio nome Γ© o que motiva as crianΓ§as a irem todos os dias para as aulas.

Para recepcionΓ‘-los, em 2023, nΓ£o foi tarefa fΓ‘cil. A Escola Classe CafΓ© Sem Troco, localizada a cinco quilΓ΄metros de distΓ’ncia da comunidade, precisou passar por uma sΓ©rie de adaptaΓ§Γ΅es para acolher os 67 jovens Warao Coromoto. Professora bilΓ­ngue, com fluΓͺncia em portuguΓͺs e espanhol, uma intΓ©rprete de libras para atender uma aluna com deficiΓͺncia auditiva e educadores sociais voluntΓ‘rios da prΓ³pria comunidade se mobilizam dia apΓ³s dia para garantir um ensino inclusivo aos alunos refugiados.

EstratΓ©gias de socializaΓ§Γ£o tambΓ©m fazem parte do planejamento educacional. Para os alunos brasileiros jΓ‘ matriculados na escola, a direΓ§Γ£o precisou incluir novas frentes de ensino. β€œNΓ³s nΓ£o podemos separar esses jovens dos outros que jΓ‘ estudavam aqui. Eles precisam conviver com todos, isso faz parte da cultura deles, de enxergar o mundo de forma coletiva”, defende a diretora da escola, Sheyla Cristina Alves Passos. β€œPor isso, os estudantes da comunidade Warao tΓͺm aulas de portuguΓͺs, espanhol, warao e libras. JΓ‘ as outras turmas tambΓ©m aprendem espanhol e libras para que possam se comunicar com os alunos refugiados”, conclui Sheyla.

O processo de aprendizagem de quem antes nΓ£o sabia ler nem escrever estΓ‘ avanΓ§ando, apesar das dificuldades. As aulas, de segunda a sexta-feira, das 7h30 Γ s 12h30, reΓΊnem todos os alunos em uma ΓΊnica sala de aula, onde sΓ£o criados grupos por nΓ­vel de alfabetizaΓ§Γ£o.

β€œAs nossas crianΓ§as nΓ£o liam, nΓ£o falavam portuguΓͺs, nΓ£o escreviam e tinham muita vergonha. Agora jΓ‘ nΓ£o tem mais isso. A gente vΓͺ que eles estΓ£o aprendendo. Para nΓ³s, nΓ£o hΓ‘ maior compromisso no mundo do que garantir a entrada deles na educaΓ§Γ£o”, defende o cacique.

TransformaΓ§Γ£o de vidas

Questionada sobre os desafios de educar um grupo de refugiados indΓ­genas venezuelanos, a professora Maria Janerrandra FogaΓ§a nΓ£o segurou as lΓ‘grimas: β€œEles sΓ£o os nossos filhos”, diz. β€œEu nΓ£o me imagino dando aula para outros alunos que nΓ£o sejam eles. Eu sou apaixonada por todos. Quando saio de fΓ©rias, nΓ£o paro de pensar em todos. A realidade deles, quando chegaram aqui, me tocou muito. Γ‰ Deus que nos capacita para essa posiΓ§Γ£o e eu sou muito orgulhosa em ser a responsΓ‘vel pela mudanΓ§a de vida deles”, compartilha.

β€œVΓͺ-los comendo na hora da merenda Γ© gratificante. Eles nΓ£o tinham como se alimentar na Venezuela. Alguns costumes nΓ³s tambΓ©m conseguimos adaptar. Hoje eles sabem comer direitinho, sem derrubar ou jogar a comida no chΓ£o. Eles aprenderam a usar o banheiro tambΓ©m. Eles estΓ£o com outros modos na hora de socializar tambΓ©m. A gente precisa preparΓ‘-los para conviver tambΓ©m fora da escola”, defende a professora.

AlΓ©m disso, a merenda escolar aos poucos foi aumentando a aceitabilidade. Antes havia espaΓ§o somente para arroz e frango, mas hoje hΓ‘ a possibilidade de comer verduras e cuscuz, por exemplo. JΓ‘ dentro da prΓ³pria comunidade, o apoio para se alimentar vem do GDF. GraΓ§as ao CartΓ£o Prato Cheio, instituΓ­do pela Sedes-DF, os nΓΊcleos familiares conseguem adquirir o essencial para ter o que dar de comer Γ  comunidade.

Ler, escrever e falarΒ 

Mesmo que ainda estejam em processo de alfabetizaΓ§Γ£o, Γ© unΓ’nime entre todos os alunos da turma Warao: a primeira coisa que querem aprender a escrever sozinhos Γ© o prΓ³prio nome. Para Birmarys Del Valle Zapata Rivero, 16 anos, a sua matΓ©ria preferida Γ© o portuguΓͺs: β€œEu quero aprender a ler e a escrever para ajudar as minhas amigas. Eu sou muito mais feliz aqui do que na Venezuela”, avalia.

JΓ‘ para o Josesu Pacheco Rojos, 13 anos, o objetivo Γ© ainda maior: β€œEu quero logo saber escrever e ler porque eu quero ensinar a minha famΓ­lia tambΓ©m”. Ele chegou Γ  escola neste ano e, hΓ‘ quase um mΓͺs tendo aulas, estΓ‘ aprendendo as primeiras etapas da alfabetizaΓ§Γ£o.

β€œEle Γ© muito dedicado. EstΓ‘ em uma turma diferente porque ele entrou agora, neste ano letivo. JΓ‘ estΓ‘ aprendendo as vogais. Γ‰ difΓ­cil, mas ele estΓ‘ se saindo bem”, avalia a professora Maria Janerrandra.

JΓ‘ para Noli Zapata, 13 anos, o sonho com a alfabetizaΓ§Γ£o Γ©, um dia, poder escrever um livro. β€œO que eu mais gosto de estudar Γ© para aprender a ler e escrever. Quando eu souber, quero escrever livros. Eu tambΓ©m gosto muito de jogar bola aqui no Brasil”, revela a garotinha.

Fonte: AgΓͺncia BrasΓ­lia

CrΓ©ditos: pexels-los-muertos-crew-7205812

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