Programa da Rede de Jornalistas Pretos pela Diversidade na Comunicação oferece formação, apoio psicossocial e orientação para mulheres expostas à violência digital e política
A Rede de Jornalistas Pretos pela Diversidade na Comunicação (Rede JP) realiza uma nova edição da Rede de Proteção Digital para Comunicadoras Negras (REPCONE). Essa iniciativa visa fortalecer a capacidade de proteção, resposta e resiliência de mulheres em visibilidade pública diante de ameaças digitais, violência on-line e campanhas de desinformação.
A partir desse programa, a Rede JP promove formação, segurança, acolhimento e apoio transnacional para comunicadoras de toda a América Latina. A primeira edição, lançada em agosto de 2025, reuniu 50 participantes e alcançou um impacto estimado de 17,1 milhões de pessoas.
Violência no contexto eleitoral
A nova edição do programa acontece em um contexto ainda maior de polarização, alavancados pelas Eleições. Nesse cenário, as mulheres negras, pessoas LGBTQIA+, populações periféricas, defensores de direitos humanos, ativistas e pessoas que ocupam cargos políticos se tornam ainda mais vulneráveis.
Afinal, conforme o estudo “Regime de ameaça: a violência política de gênero e raça no âmbito digital”, divulgado pelo Instituto Marielle Franco em agosto de 2025, esses grupos são os principais alvos da violência política no ambiente digital brasileiro.
“Nos últimos anos, percebemos que os ataques se tornaram mais coordenados e rápidos. Por isso, além da formação, buscamos criar uma estrutura permanente de apoio para que essas mulheres não enfrentem a violência digital sozinhas”, afirma Marcelle Chagas, coordenadora geral da Rede JP, integrante da rede de mulheres líderes da Universidade e idealizadora da REPCONE.
Nesse sentido, a iniciativa ainda contará com o lançamento do LATINAS IA, agente digital disponível para dar suporte 24h para mulheres em situação de vulnerabilidade.
“A maioria das ferramentas de inteligência artificial disponíveis hoje foi desenvolvida com referências que nem sempre refletem a realidade das mulheres latino-americanas. O Latinas nasceu justamente para preencher essa lacuna, oferecendo um suporte construído a partir dos contextos culturais e linguísticos da nossa região. Isso torna as orientações mais precisas e permite responder com mais rapidez às situações de violência digital”, destaca.
Em 2026, 30 mulheres da América Latina serão selecionadas entre jornalistas, ativistas, lideranças comunitárias e pesquisadoras, refletindo a diversidade de perfis, territórios, identidades e formas de atuação pública na região. A iniciativa prioriza candidatas que atuam em contextos de maior risco e invisibilidade estrutural.
As inscrições para a nova edição tiveram início em 15 de julho e foram prorrogadas até 25 de agosto, podendo ser realizadas por meio deste link.
Vale destacar que o programa é estruturado em quatro frentes de atuação integradas:
- formação: com quatro aulas virtuais sobre segurança digital, resposta a incidentes, proteção de dados e enfrentamento à desinformação;
- proteção e cuidado: com apoio psicossocial e orientação jurídica especializada;
- resposta rápida: com protocolos de atuação diante de ataques coordenados, assédio online e campanhas de desinformação;
- infraestrutura tecnológica: com a implementação da Latinas IA, ferramenta de inteligência artificial voltada à proteção e ao fortalecimento de mulheres que atuam na defesa da democracia na América Latina.
O cronograma deste ano está estruturado em:
- quatro aulas online sobre segurança digital, proteção de dados, resposta a incidentes e enfrentamento à desinformação, com acessibilidade em Libras e tradução para português e espanhol;
- oficina presencial no Rio de Janeiro com organizações parceiras;
- oficina presencial no Peru com organizações parceiras na América Latina;
- mini grants: apoio financeiro para que participantes repliquem o conhecimento em seus territórios por meio de ações comunitárias, campanhas de conscientização e fortalecimento de redes locais.
Cartilha REPCONE: contextualizando o problema
Como resultado do primeiro treinamento, em dezembro de 2025, o REPCONE lançou a cartilha “Proteção Digital para Comunicadoras Negras na América Latina”, que reúne dados, análises e orientações práticas para enfrentar a violência digital contra mulheres negras em posição de visibilidade pública.
Produzida com a colaboração de especialistas, como Sofía Carrillo, coordenadora da Red de periodistas afrolatinos, e das participantes da primeira edição do programa, a publicação sistematiza experiências vividas por comunicadoras da região e apresenta estratégias de prevenção, proteção e resposta a ataques online.
O material orienta como agir em situações de vazamento de dados, perseguição, assédio e campanhas coordenadas de desinformação, além de reunir protocolos de segurança digital e recomendações para o cuidado com a saúde mental.
A cartilha também defende que a violência digital deve ser compreendida como parte das desigualdades estruturais de raça e gênero, com impactos que ultrapassam o ambiente virtual e afetam a saúde mental, a trajetória profissional e a permanência dessas mulheres em espaços de liderança e tomada de decisão
Foto: Magnific
Fonte: Observatório 3º Setor