Relatório do Greenpeace Brasil mostra que territórios vulnerabilizados já desenvolvem respostas próprias aos eventos extremos, mas ainda enfrentam barreiras para acessar recursos e políticas públicas
As populações que mais sofrem com os eventos extremos da crise climática no Brasil são as que encontram mais dificuldades para acessar os recursos de adaptação e prevenção. Enquanto comunidades negras, indígenas, quilombolas, periféricas e rurais estão entre as mais expostas a enchentes, secas e ondas de calor, muitas delas já desenvolvem soluções próprias para enfrentar os impactos das mudanças do clima. É o que aponta o relatório “As soluções dos territórios: Adaptação Climática Baseada em Comunidades”, elaborado pelo Greenpeace Brasil com apoio do Laboratório de Estudos do Clima e do Ambiente (UERJ) e a Brisa Soluções Ambientais. O conteúdo do relatório está disponível aqui.
O estudo, que combina revisão bibliográfica e documental com entrevistas realizadas com iniciativas de adaptação em diferentes regiões do Brasil, apresenta recomendações para ampliar a participação das comunidades na construção de políticas públicas. Por meio de dados e análises, o Greenpeace defende uma mudança na forma como o Brasil enfrenta a emergência climática: comunidades diretamente afetadas pelos eventos extremos devem passar a ocupar posição central na formulação e implementação das políticas de adaptação, o que não ocorre atualmente.
Diante do cenário de desigualdade na exposição aos impactos climáticos e de dificuldades de acesso a recursos e políticas públicas, o estudo apresenta a Adaptação Baseada em Comunidades (AbC) como uma abordagem capaz de colocar no centro das estratégias de enfrentamento justamente as populações que vivenciam os efeitos da crise climática em seus territórios.
Dados citados no relatório evidenciam que raça, renda e território afetam a capacidade de uma população de se proteger dos impactos climáticos. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 são um exemplo – segundo dados do Datafolha, reunidos no relatório, 47% das famílias com renda de até dois salários mínimos relataram perdas significativas, contra 13% entre aquelas com renda de cinco a dez salários mínimos. A desigualdade também aparece no recorte racial: 52% da população preta dos municípios afetados informou ter sofrido perdas materiais ou de renda, percentual que caiu para 40% entre a população parda e 26% entre a população branca.
“Os dados reforçam a necessidade de incorporar a justiça climática e o combate ao racismo ambiental às políticas de adaptação. Em um país marcado por desigualdades históricas de acesso à moradia, saneamento, saúde, mobilidade e infraestrutura, os impactos dos eventos extremos tendem a se concentrar justamente nos territórios que já enfrentam maior precariedade”, comenta a coordenadora da frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, Leilane Reis.
Em Recife (PE), por exemplo, comunidades como Ilha de Deus, Coque e Mustardinha enfrentaram alagamentos severos nos últimos anos, enquanto, em Belém (PA) e na Ilha do Marajó (PA), a combinação de enchentes, marés altas, falta de drenagem e saneamento tem afetado principalmente comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas. No Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, as temperaturas internas das moradias podem chegar a até 8°C acima da média urbana, com sensação térmica superior a 60°C, afetando especialmente crianças, idosos e mulheres.
Os impactos também se estendem ao campo. No Vale do Jequitinhonha (MG), comunidades quilombolas enfrentam períodos prolongados de estiagem, com efeitos sobre cultivos como milho, feijão e mandioca. No semiárido nordestino, o aumento das temperaturas e as secas mais intensas comprometem o acesso à água e a produção de alimentos, afetando agricultores familiares e comunidades tradicionais.
Experiências locais mostram caminhos possíveis

Fossas Sépticas Biodigestoras na comunidade da Vila do Carmo do Maruanum, Macapá (AP).
© Marlon Vieira / Greenpeace
Em uma das regiões mais afetadas pela falta de saneamento básico no país, o Coletivo Utopia Negra se uniu à comunidade da Vila do Carmo do Maruanum, na área rural de Macapá (AP), para instalar uma Fossa Séptica Biodigestora (FSB). A tecnologia, de baixo custo e adaptável para áreas alagáveis, trata o esgoto por biodigestão e evita a contaminação do solo e da água, promovendo melhorias diretas na saúde e na qualidade de vida local.
Soluções simples e adequadas à realidade local, como o FSB, fortalecem a resiliência das comunidades frente aos impactos do clima. Experiências como essa precisam ser reconhecidas e valorizadas nos espaços de decisão, orientando políticas públicas construídas de forma conjunta com as populações que mais sintam os impactos da crise.
Comunidade do Horto (RJ)

Trabalho voluntário na comunidade do Horto, Rio de Janeiro. © Lucas Landau / Greenpeace
Na comunidade bicentenária do Horto, no Rio de Janeiro, a união de seus moradores transformou décadas de resistência em conquistas de direitos e cuidado com o território. Cercada pela Mata Atlântica e atravessada pelo Rio dos Macacos, a comunidade garantiu coleta regular de lixo, acesso a saneamento básico e a despoluição do rio — apesar de enfrentar décadas de ameaças de despejo, especialmente após a chegada de moradores de alta renda.
As ações lideradas pelo projeto Horto Natureza, fundado pelo morador local Roberto Fonseca, incluem limpezas coletivas, plantio de árvores e educação ambiental. Esses esforços mostram como a valorização do conhecimento local e a capacidade de mobilização da comunidade são caminhos essenciais para a adaptação climática.
A limpeza contínua do rio e a gestão adequada de resíduos — realizadas em parceria com autoridades públicas — são resultado de um longo processo de organização comunitária que garantiu direitos fundamentais. Esses esforços ajudam a prevenir enchentes e danos relacionados à água, além de assegurar uma melhor qualidade de vida.
Vila Arraes (PE)

A comunidade de Vila Arraes, em Recife, elaborou um plano comunitário de contingência, adaptação e mitigação dos efeitos das chuvas. Coordenado pelo Espaço GRIS Solidário em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a comunidade estruturou brigadas de resposta com atuação em logística, saúde (mental e preventiva), comunicação e gestão de crises, além de promover formações com a Defesa Civil sobre protocolos de emergência durante enchentes do Rio Capibaribe e riscos de eletrocussão.
O estudo do Greenpeace corrobora o potencial de combinar adaptação baseada em comunidades com Soluções Baseadas na Natureza, como hortas agroecológicas urbanas e ações de recuperação de manguezais. Ao mesmo tempo em que ajudam a reduzir riscos, essas iniciativas podem gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos para as populações locais.
Financiamento não chega a quem está na linha de frente
Um dos principais obstáculos identificados é a dificuldade de acesso das comunidades aos recursos destinados à agenda climática. Embora o Brasil disponha de fundos e programas voltados à mudança do clima, ainda são escassos os mecanismos que permitem que organizações comunitárias, associações locais, povos indígenas, quilombolas e outros grupos de base tenham acesso direto, contínuo e simplificado ao financiamento.
Segundo dados citados no estudo, o financiamento climático internacional destinado ao Brasil alcançou R$ 26,6 bilhões entre 2021 e 2022, mas apenas 5% foi direcionado exclusivamente para ações de adaptação e somente 3% foi disponibilizado na forma de doações. A maior parte dos recursos é distribuída por meio de instrumentos de crédito, o que dificulta o acesso por comunidades e organizações locais.
O relatório também chama atenção para a burocracia envolvida na elaboração, submissão, gestão e prestação de contas de projetos. Na prática, essa complexidade exclui justamente organizações com menor estrutura administrativa e financeira, fazendo com que experiências bem-sucedidas permaneçam restritas a projetos de pequena escala.
“Ampliar a adaptação climática exige, portanto, não apenas aumentar o volume de recursos, mas mudar a forma como eles são distribuídos, garantindo acesso direto às comunidades e fortalecendo iniciativas que já funcionam nos territórios”, afirma o porta-voz da Frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus.
“A adaptação climática não pode ser construída apenas de cima para baixo. As comunidades que vivem diariamente os efeitos da crise climática já acumulam conhecimento, práticas e soluções capazes de orientar políticas públicas mais eficazes e justas. O desafio, agora, é reconhecer esse protagonismo, garantir recursos e transformar experiências locais em políticas de escala nacional”, completa o porta-voz.
Plano Clima precisa chegar aos territórios
O estudo avalia que o Brasil avançou na construção de instrumentos institucionais para enfrentar a emergência climática, mas ainda há uma distância significativa entre as diretrizes nacionais e sua implementação local. O desafio, segundo o relatório, é transformar compromissos climáticos em políticas permanentes, integradas e capazes de responder às especificidades de cada território.
Entre as recomendações apresentadas estão a criação de mecanismos de financiamento direto para comunidades, o fortalecimento de equipes técnicas municipais, a elaboração de planos de adaptação com participação popular e a integração das políticas climáticas aos instrumentos de planejamento urbano, habitação, mobilidade, saneamento e gestão de riscos.
O relatório também defende que estados e municípios ampliem os Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs), fortaleçam a participação social na elaboração de planos de adaptação e criem sistemas públicos de monitoramento dos investimentos e resultados das políticas climáticas.
Foto: Marlon Vieira/Greenpeace