Iniciativa multissetorial estreia em setembro unindo o engajamento dentro de casa à força coletiva de empresas, sociedade civil, academia e poder público
O programa Brasil Sem Desperdício lança a campanha #FazAXepa para enfrentar uma grande contradição nacional: o Brasil é o 7º maior país em população e o 11º em PIB, mas convive com desigualdades que permitem que enquanto aproximadamente 55 milhões de brasileiras e brasileiros, segundo dados do IBGE, passam por algum grau de insegurança alimentar, a perda e o desperdício de alimentos são tolerados em toda a cadeia produtiva. Toda essa perda é impulsionada por padrões estéticos, desafios logísticos ou falhas operacionais já normalizadas e incluídas no valor final dos produtos.
Marcando as celebrações do Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos (29 de setembro) e do Dia Mundial da Alimentação (16 de outubro), a mobilização propõe uma mudança de rota: encarar o desperdício como um problema cultural, sistêmico e climático.
A campanha resgatará o conceito da xepa — tradicionalmente associada ao final da feira —, ressignificando-a para o dia a dia de cada cidadão. Dessa forma, a xepa deixa de ser o fim da linha para se tornar um comportamento individual ou coletivo, o momento em que o olhar muda e o que parecia excesso ou sobra ganha valor como ingrediente fundamental nos negócios e nas cozinhas dos lares brasileiros.
O Brasil Sem Desperdício, uma cooperação entre o WWF-Brasil e a WRAP (Waste & Resources Action Programme), é uma iniciativa multissetorial que atua no enfrentamento da perda e do desperdício de alimentos no país. O programa funciona como um pacto colaborativo que articula empresas, organizações da sociedade civil, governo e academia em torno de uma agenda comum, ajudando na definição de metas, medição de perdas e ações integradas.
Atualmente, a iniciativa possui 11 empresas signatárias de destaque em seus setores e diversas instituições parceiras. Nesta campanha, o movimento ganha capilaridade ao contar com marcas como Carrefour, Grupo Accor e Grupo Raízes, além de nomes como a chef e embaixadora do programa, Bel Coelho.
Para Daniela Teston, diretora de Relações Corporativas do WWF-Brasil, o combate ao desperdício deixou de ser apenas uma questão operacional para se tornar um imperativo estratégico das corporações. “Enquanto o mundo perde cerca de US$ 1 trilhão por ano — o equivalente a 30% da produção agrícola de todo o planeta desperdiçada —, o Brasil enfrenta o desafio de conectar a eficiência da sua cadeia ao combate à insegurança alimentar. Enfrentar esse desperdício coletivamente talvez seja o mais claro teste de maturidade empresarial do nosso tempo”, aponta.
Do básico em casa à urgência climática e multissetorial
A campanha defende que o combate ao desperdício é uma via de mão dupla. De um lado, o poder da rotina doméstica: lembrar que o básico feito em casa — como planejar compras, aproveitar integralmente os alimentos e resgatar o valor de receitas tradicionais — tem impacto imediato. De outro, a percepção de que a mudança de exige uma ação coletiva e estrutural entre empresas, sociedade civil, academia e poder público.
Luiza Soares, líder do programa Brasil Sem Desperdício no WWF-Brasil, reforça que a transformação depende dessa articulação ampla e de uma atuação sistêmica. “O desperdício de alimentos é, ao mesmo tempo, uma ineficiência econômica, uma pressão ambiental e uma injustiça social. A transformação não virá de iniciativas isoladas; ela depende da capacidade de empresas, governos, academia e sociedade colaborarem em torno de um objetivo comum, compartilhando aprendizados e definindo novos padrões”, destaca.
Do ponto de vista ambiental e climático, a pauta ganha urgência máxima. Quando um alimento é produzido e não consumido, perdem-se todos os recursos naturais e energéticos empregados, gerando emissões de gases de efeito estufa em todas as etapas (da produção ao descarte em aterros). Ao aumentar a eficiência do sistema alimentar e evitar o descarte, a prevenção reduz a pressão por conversão de novas áreas e auxilia na contenção da derrubada de vegetação nativa para plantações e pastagens.
Para levar o conceito à prática, a campanha contará com a participação da embaixadora Bel Coelho e de influenciadores, como a atriz Laila Zaid, que produzirão vídeos exclusivos para apresentar soluções para a perda e o desperdício de alimentos, seja em casa ou nas operações do setor agroalimentício.
“Quando a gente olha para a xepa com outros olhos, percebe que muitos alimentos ainda têm qualidade, sabor e potencial para se transformar em refeições deliciosas. Frutas, legumes e verduras que fogem do padrão estético não deixam de ser bons para o consumo. Valorizar esses alimentos é uma forma prática de combater o desperdício, contribuir para a segurança alimentar e gerar um impacto positivo para o meio ambiente. A xepa não é sobre o que sobrou, mas sobre tudo o que ainda pode se transformar em comida boa.”, afirma a chef e embaixadora do movimento Brasil Sem Desperdício, Bel Coelho.
Além disso, o movimento ganha força com a participação de importantes atores do setor privado e terceiro setor, permitindo levar a iniciativa para dentro dos negócios e engajar colaboradores, clientes e outros pares. Em sintonia com essa mobilização, o ecossistema também articulará mesas de diálogo com o poder público e a academia para fortalecer a transformação sistêmica.
Foto: Theo Grahl / WWF-Brasil
Fonte: Rita Silva